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canção do momento: brett anderson, "to the winter" Um saxofone pegajoso cola-se-me aos ouvidos. Dá boleia à voz de dor de dentes de Brett Anderson. Adoro esta voz e as lágrimas que me provoca. Adoro a aspereza dos poemas atrapalhados, amargos e atrapalhados, como quem precisa urgentemente de fazer sangrar uma veia. Vinte para a uma – e não uma e vinte como no relógio do costume – e não arranjo coragem para me ir deitar e ainda ao jantar jurava a mim próprio que ia para a cama cedo. Escondi as desistências num filme, um daqueles onde nunca ninguém está sozinho. A não ser o espectador. Esbocei entusiasmo na recta final da autobiografia de Ingmar Bergman. Li as últimas páginas, interiorizei e o entusiasmo já era. Fiz pesquisa para um possível romance, brincando aos escritores fiz de conta que a amargura serve para alguma coisa, neste caso, de inspiração. E não resisti a este apelo. Nesta altura, o saxofone deu lugar ao piano. Cada um no seu canto. Sozinhos. A voz do Brett Anderson continua dorida e dolorosa. Adoro a dor da voz dele. Uma pessoa habitua-se. Etiquetas: brett anderson, desabafos, inglaterra Damon at 12:49 a.m. ![]() É assim. As pessoas, tal como os frascos de molho. O conselho do mundo dos adultos é: rejeitar se o botão central – onde quer que ele seja – estiver deprimido. No mundo dos adultos, as pessoas tristes são objectos indesejados, impróprios para consumo. Se entretanto saírem desse estado, então tudo bem, o que interessa é que riam e sobretudo façam rir. As pessoas no mundo dos adultos tal como os frascos de molho – baratos, práticos, descartáveis. Vou continuar a ver o “Where the wild things are” para aprender com as crianças, os monstros cabeçudos e o Spike Jonze que, no fundo, é uma mistura dos dois. Etiquetas: cinema, desabafos, inglaterra, molho, pessoas, where the wild things are Damon at 7:16 p.m. Etiquetas: desabafos, inglaterra Damon at 8:56 p.m. Hoje, apeteceu-me ser pai. Não que amanhã já não queira. Não que isso nunca me tenha passado pela cabeça. Pelo contrário, há muito – eu diria desde que penso no assunto – que tenho esse desejo. Como um horizonte, não como uma realidade palpável e imediata. Mas hoje apeteceu-me ter nos braços uma criança – menino ou menina, pouco importa – que me observasse com o orgulho reflectido nos meus olhos e me chamasse “papá”, “pai”, “daddy”… Bah, estou certo de que consigo aguentar mais algum tempo. Damon at 5:51 p.m. Engraçado como, ao pôr a cabeça fora da janela, logo após o vento fazer esvoaçar as cortinas como as velas de um barco, senti simultaneamente o cheiro dos passeios solitários pelos relvados nocturnos do Algarve, nas férias eternamente sós da minha infância, com os meus pais, e o odor quente de uma tarde caminhando – solitário, muito solitário – ao lado do rio Tejo, ao ver partir em definitivo uma adolescência duvidosa. Etiquetas: desabafos, inglaterra Damon at 10:16 p.m.
Hoje não caminhei até à praia. Para quebrar rotinas. Para fingir que a vida pode ser interessante. Até pode. Principalmente se eu fingir. Fui à universidade despedir-me da actriz com quem trabalhei recentemente. Acabou o curso. Vai em busca de aventura. Eu também. Vim para casa cumprir desejos subversivos de arroz doce e tentar escrever mais um pouco. Tenho um português que fugiu da sua terra em busca de final feliz à espera que eu lhe dê de comer. Não sou eu, entenda-se. É uma personagem. Entre episódios de "Life on Mars" que me dão vontade de ouvir David Bowie e a vigia do tacho, vou sarrabiscando o monitor. De vez em quando, páro para ter saudades. Etiquetas: arroz doce, david bowie, desabafos, inglaterra Damon at 5:36 p.m. Etiquetas: desabafos, estrelas, tempo Damon at 1:13 a.m. O regresso a casa. Pastel de nata, água das pedras, café como deve ser. Só é pena o tempo me parecer tão inglês. Onde está a minha primavera? Etiquetas: água das pedras, café, desabafos, pastel de nata Damon at 6:05 p.m. Dias como hoje. O suposto fim-de-semana condensado num só dia, porque de sábado e de domingo estes dois últimos tiveram muito pouco. Queria descansar, tirar 24 horas para compor o desenho, fazer as compras da semana, tratar da roupa… Mas quis a estranha e despropositada mente humana que uma névoa deprimida caísse sobre mim. Fiz as compras, só não tratei da roupa por falta de trocos, mas não descansei. Dentro de mim, uma angústia empurrava-me para o fundo de um dia falhado. Acabei a ouvir Rodrigo Leão e a tentar ler sem conseguir, porque uma onda de pânico me sobrevoou a cabeça o tempo todo. Etiquetas: chewbacca, desabafos Damon at 6:34 p.m.
Um passeio à beira-mar. Pequeno-almoço tardio na esplanada. Torradas. Sumo de laranja. Conversa. Muita. Partilhar uma história ou duas. Regresso a casa. Não muito longe. Ver um filme. Pensar no jantar. Fazer o jantar. Ouvir música. Tudo tão fácil, do lado de lá dos sonhos. Damon at 7:13 p.m.
Nunca tinha sentido a neve no meu cabelo. Hoje de tarde, no meu caminho solitário para a universidade, apercebi-me de que não chovia; aquilo eram pequenos pedaços de céu que me refrescavam o rosto. Quando voltava para casa, ainda nevava. Na noite feita, o contraste entre o céu escuro e aqueles farrapos brancos que o rasgavam tornava-se ainda mais óbvio. Caminhava ao lado de uma colega, bem mais habituada ao gelado fenómeno, na longínqua Rússia. Nunca me senti tão sozinho como naquele momento, entre a multidão de flocos. Etiquetas: desabafos, inglaterra, neve Damon at 12:30 a.m. Etiquetas: desabafos, inglaterra Damon at 7:20 p.m. Para que o dia me pareça menos grave, apesar de triste. Menos cinzento, apesar da ausência de cor para lá dos cortinados azuis e dos tijolos corados das casas clonadas. Para que um horizonte de fechar os olhos em êxtase me conduza para lá do parque de estacionamento de um supermercado que, apesar de caro, não tem qualquer tipo de brilho. Oiço a versão do Morrissey, mas o que eu queria mesmo era a voz da Audrey. Etiquetas: audrey hepburn, desabafos, inglaterra, moonriver, música Damon at 2:41 p.m.
Chuva. Em cima do piano. Demasiada luz. Apetece-me um serão aquecido pela obscuridade das velas. Uma presença. Cá dentro. Uma ausência, lá fora, preenchendo os espaços entre os aguaceiros. Chuva silenciosa. Em cima do piano. As teclas acompanhando o ritmo dos meus passos. Cá dentro. Etiquetas: chuva, desabafos, inglaterra, piano Damon at 9:24 p.m.
É pena que as necessidades da mente não se ajustem aos relógios. E à distância. Neste preciso momento, apeteceu-me conversar com alguém que me conheça. Senti uma ligeira asfixia e quis abrir a janela e gritar. Mas em português. Nada de grave. Etiquetas: desabafos, inglaterra Damon at 2:33 p.m.
Há notícias que nos atingem como o arrepio do wasabi num restaurante japonês. Depois de breves instantes de incómodo, lá nos recompomos. É mais ou menos isso. Costumo dizer que não gosto de surpresas, talvez por não me sentir confortável no momento do susto. Como todos, aliás. E quando não a percebo, a notícia torna-se corrosiva. A distância aumenta o suspense. Estou aparvalhado. Mas hei-de concluir que tudo não passa do mais natural dos instintos. Etiquetas: desabafos, surpresas Damon at 11:32 a.m. Trabalho intenso. Preocupações. Primeiras desilusões. Saudades – mais ninguém as tem. Assim se pode dizer que têm sido os últimos dias. Como a curva trepa pelo gráfico acima para logo a seguir cair numa cova escura, aí como aqui. Gente difícil. Como eu. Talvez não como eu, mas difícil, de qualquer forma. Eu, sozinho entre a multidão. Estrangeiro reforçado pelas minhas ideias: não gosto de beber, não fumo, não gosto do facebook, oiço música alternativa; o pior de tudo – por vezes sinto-me triste. Etiquetas: desabafos, inglaterra Damon at 1:30 p.m. Bournemouth, Inglaterra. Etiquetas: desabafos Damon at 10:11 a.m. Etiquetas: desabafos Damon at 1:24 a.m. Damon at 10:06 p.m.
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outras praias
where words come together as waves, blue and beautiful, dying in the whiteness, but repeating themselves like music notes, from sunrise to sunset to sunrise again. um livro: «Saudades de Nova Iorque», de Pedro Paixão. um filme: «Memento». um disco: «King of limbs», Radiohead. |