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sexta-feira, agosto 06, 2010
canção do momento: brett anderson, "to the winter"

Um saxofone pegajoso cola-se-me aos ouvidos. Dá boleia à voz de dor de dentes de Brett Anderson. Adoro esta voz e as lágrimas que me provoca. Adoro a aspereza dos poemas atrapalhados, amargos e atrapalhados, como quem precisa urgentemente de fazer sangrar uma veia. Vinte para a uma – e não uma e vinte como no relógio do costume – e não arranjo coragem para me ir deitar e ainda ao jantar jurava a mim próprio que ia para a cama cedo. Escondi as desistências num filme, um daqueles onde nunca ninguém está sozinho. A não ser o espectador. Esbocei entusiasmo na recta final da autobiografia de Ingmar Bergman. Li as últimas páginas, interiorizei e o entusiasmo já era. Fiz pesquisa para um possível romance, brincando aos escritores fiz de conta que a amargura serve para alguma coisa, neste caso, de inspiração. E não resisti a este apelo. Nesta altura, o saxofone deu lugar ao piano. Cada um no seu canto. Sozinhos. A voz do Brett Anderson continua dorida e dolorosa. Adoro a dor da voz dele. Uma pessoa habitua-se.

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Damon at 12:49 a.m.

segunda-feira, julho 26, 2010



É assim. As pessoas, tal como os frascos de molho. O conselho do mundo dos adultos é: rejeitar se o botão central – onde quer que ele seja – estiver deprimido. No mundo dos adultos, as pessoas tristes são objectos indesejados, impróprios para consumo. Se entretanto saírem desse estado, então tudo bem, o que interessa é que riam e sobretudo façam rir. As pessoas no mundo dos adultos tal como os frascos de molho – baratos, práticos, descartáveis. Vou continuar a ver o “Where the wild things are” para aprender com as crianças, os monstros cabeçudos e o Spike Jonze que, no fundo, é uma mistura dos dois.

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Damon at 7:16 p.m.

sexta-feira, julho 23, 2010

Soube bem ter um amigo fisicamente presente neste quadradinho inglês. Foram dois dias sem grandes oportunidades para trabalhar, mas estranhamente preenchidos – estranhamente em relação ao habitual. As refeições deixaram momentaneamente de ser apenas comida. Durante um bocado, foram também conversa e companhia. Algo que muita gente não entende, este prazer em sair da solidão de vez em quando.

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Damon at 8:56 p.m.

terça-feira, junho 01, 2010

canção do momento: albert hammond jr., “in transit”

Hoje, apeteceu-me ser pai. Não que amanhã já não queira. Não que isso nunca me tenha passado pela cabeça. Pelo contrário, há muito – eu diria desde que penso no assunto – que tenho esse desejo. Como um horizonte, não como uma realidade palpável e imediata. Mas hoje apeteceu-me ter nos braços uma criança – menino ou menina, pouco importa – que me observasse com o orgulho reflectido nos meus olhos e me chamasse “papá”, “pai”, “daddy”… Bah, estou certo de que consigo aguentar mais algum tempo.

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Damon at 5:51 p.m.

terça-feira, maio 25, 2010

canção do momento: radiohead, "nude"

Engraçado como, ao pôr a cabeça fora da janela, logo após o vento fazer esvoaçar as cortinas como as velas de um barco, senti simultaneamente o cheiro dos passeios solitários pelos relvados nocturnos do Algarve, nas férias eternamente sós da minha infância, com os meus pais, e o odor quente de uma tarde caminhando – solitário, muito solitário – ao lado do rio Tejo, ao ver partir em definitivo uma adolescência duvidosa.

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Damon at 10:16 p.m.


O tempo a mudar. Depois dos dias excepcionalmente quentes, aproximam-se as nuvens devoradoras de azul e de optimismos.

Hoje não caminhei até à praia. Para quebrar rotinas. Para fingir que a vida pode ser interessante. Até pode. Principalmente se eu fingir.

Fui à universidade despedir-me da actriz com quem trabalhei recentemente. Acabou o curso. Vai em busca de aventura. Eu também.

Vim para casa cumprir desejos subversivos de arroz doce e tentar escrever mais um pouco. Tenho um português que fugiu da sua terra em busca de final feliz à espera que eu lhe dê de comer. Não sou eu, entenda-se. É uma personagem.

Entre episódios de "Life on Mars" que me dão vontade de ouvir David Bowie e a vigia do tacho, vou sarrabiscando o monitor. De vez em quando, páro para ter saudades.

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Damon at 5:36 p.m.

segunda-feira, abril 12, 2010

A meu pedido, o tempo veio quente, tanto que até parece verão – o verão que não vai ser por cá, este ano. Não quero ser mal-agradecido mas este tempo põe-me nervoso, tal como o tempo – o outro – a passar, indicando-me o caminho de regresso ao meu pequeno quadrado inglês. E depois, estas noites cheias de estrelas… pedem passeios de mãos dadas, as minhas não chegam, os olhos cansados de invejar os outros. Não me queixo. Não, eu gosto disto. Mas o problema é saber de que forma poderia gostar muito mais.

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Damon at 1:13 a.m.

quarta-feira, março 31, 2010

canção do momento: carter usm, "the road to domestos, everytime a churchbell rings"

O regresso a casa. Pastel de nata, água das pedras, café como deve ser. Só é pena o tempo me parecer tão inglês. Onde está a minha primavera?

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Damon at 6:05 p.m.

segunda-feira, março 15, 2010

Dias como ontem. Quando, enrolado em tecido grosso, maquilhado e com pêlo colado à cara, passei horas a fazer de Chewbacca, a fingir que lutava contra um extraterrestre com poderes, para me deixar cair, derrotado, no chão verde que um mago da informática irá transformar em gelo. Ao fim do dia, estava exausto mas nem por isso insatisfeito. Ainda houve tempo para um desejado sushi em Charminster Road, e para um filme – “Capturing Mary” – ao sabor de um chocolate esquecido na mochila…

Dias como hoje. O suposto fim-de-semana condensado num só dia, porque de sábado e de domingo estes dois últimos tiveram muito pouco. Queria descansar, tirar 24 horas para compor o desenho, fazer as compras da semana, tratar da roupa… Mas quis a estranha e despropositada mente humana que uma névoa deprimida caísse sobre mim. Fiz as compras, só não tratei da roupa por falta de trocos, mas não descansei. Dentro de mim, uma angústia empurrava-me para o fundo de um dia falhado.

Acabei a ouvir Rodrigo Leão e a tentar ler sem conseguir, porque uma onda de pânico me sobrevoou a cabeça o tempo todo.

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Damon at 6:34 p.m.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

canção do momento: lily allen, "chinese"

Um passeio à beira-mar. Pequeno-almoço tardio na esplanada. Torradas. Sumo de laranja. Conversa. Muita. Partilhar uma história ou duas. Regresso a casa. Não muito longe. Ver um filme. Pensar no jantar. Fazer o jantar. Ouvir música. Tudo tão fácil, do lado de lá dos sonhos.

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Damon at 7:13 p.m.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

canção do momento: claude debussy, "clair de lune"

Nunca tinha sentido a neve no meu cabelo. Hoje de tarde, no meu caminho solitário para a universidade, apercebi-me de que não chovia; aquilo eram pequenos pedaços de céu que me refrescavam o rosto. Quando voltava para casa, ainda nevava. Na noite feita, o contraste entre o céu escuro e aqueles farrapos brancos que o rasgavam tornava-se ainda mais óbvio. Caminhava ao lado de uma colega, bem mais habituada ao gelado fenómeno, na longínqua Rússia. Nunca me senti tão sozinho como naquele momento, entre a multidão de flocos.

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Damon at 12:30 a.m.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Apetecia-me passear pela Foz, sentir na cara o frio transportando a brisa do mar. Apetecia-me um café e uma água das pedras, depois do jantar. E um jantar com família ou amigos. E um pastel de nata à sobremesa. Conduzir o meu carro. Regressar e ouvir os meus cães. E a minha gata. Apetecia-me ir até casa, hoje.

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Damon at 7:20 p.m.

domingo, novembro 29, 2009

Preciso urgentemente da voz da Audrey Hepburn a cantar a “Moonriver”.

Para que o dia me pareça menos grave, apesar de triste. Menos cinzento, apesar da ausência de cor para lá dos cortinados azuis e dos tijolos corados das casas clonadas.

Para que um horizonte de fechar os olhos em êxtase me conduza para lá do parque de estacionamento de um supermercado que, apesar de caro, não tem qualquer tipo de brilho.

Oiço a versão do Morrissey, mas o que eu queria mesmo era a voz da Audrey.

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Damon at 2:41 p.m.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Canção do momento: morrissey, “christian dior”

Chuva. Em cima do piano. Demasiada luz. Apetece-me um serão aquecido pela obscuridade das velas. Uma presença. Cá dentro. Uma ausência, lá fora, preenchendo os espaços entre os aguaceiros. Chuva silenciosa. Em cima do piano. As teclas acompanhando o ritmo dos meus passos. Cá dentro.

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Damon at 9:24 p.m.

segunda-feira, novembro 02, 2009

canção do momento: sneaker pimps, "precious"

É pena que as necessidades da mente não se ajustem aos relógios. E à distância. Neste preciso momento, apeteceu-me conversar com alguém que me conheça. Senti uma ligeira asfixia e quis abrir a janela e gritar. Mas em português. Nada de grave.

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Damon at 2:33 p.m.

segunda-feira, outubro 26, 2009

canção do momento: muse, "supermassive black hole"

Há notícias que nos atingem como o arrepio do wasabi num restaurante japonês. Depois de breves instantes de incómodo, lá nos recompomos. É mais ou menos isso. Costumo dizer que não gosto de surpresas, talvez por não me sentir confortável no momento do susto. Como todos, aliás. E quando não a percebo, a notícia torna-se corrosiva. A distância aumenta o suspense. Estou aparvalhado. Mas hei-de concluir que tudo não passa do mais natural dos instintos.

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Damon at 11:32 a.m.

sexta-feira, outubro 02, 2009

canção do momento: elbow, "powder blue"

Trabalho intenso. Preocupações. Primeiras desilusões. Saudades – mais ninguém as tem. Assim se pode dizer que têm sido os últimos dias. Como a curva trepa pelo gráfico acima para logo a seguir cair numa cova escura, aí como aqui. Gente difícil. Como eu. Talvez não como eu, mas difícil, de qualquer forma. Eu, sozinho entre a multidão. Estrangeiro reforçado pelas minhas ideias: não gosto de beber, não fumo, não gosto do facebook, oiço música alternativa; o pior de tudo – por vezes sinto-me triste.

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Damon at 1:30 p.m.

domingo, setembro 20, 2009

Admiro imenso as pessoas que se fazem ao caminho para atravessar meio mundo e depois chegam aqui com um sorriso nos lábios e, aparentemente, sem grandes lamentos. Do pequeno grupo que encontrei para já, sou o mais velho e, tirando a francesa de vinte anos, aquele que terá mais facilidade em ir a casa mais ou menos regularmente. Mas a verdade é que sou eu quem - mais uma vez, aparentemente - está a sofrer mais com a mudança. E estou. Não vale a pena negar, até porque não acredito nessas coisas de esconder as fraquezas para parecer mais duro. Todos temos fragilidades. Talvez esta seja a minha. Ou uma das minhas. Estou aqui há dois dias, vou a casa em Outubro e parece que o mundo me caiu em cima.

Bournemouth, Inglaterra.

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Damon at 10:11 a.m.

terça-feira, agosto 25, 2009

Chega uma altura em que convém perceber a virtude do silêncio – diz-nos coisas bem concretas, como por exemplo, que é tempo de calar e andar, sem necessariamente esquecer, mas desvalorizando as vicissitudes... Não me aconteceu muitas vezes tentar contactar alguém há algum tempo calado e essa pessoa ignorar o meu apelo, permanecendo muda. Aconteceu-me as vezes suficientes para perceber que os interesses mudam ou talvez nunca lá tenham estado, que a certa altura ficamos bem é nas memórias e não no presente. Não deixo de ter pena de cada vez que me mandam calar em silêncio.

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Damon at 1:24 a.m.

sexta-feira, julho 10, 2009

Há já muito tempo que não pego nos meus projectos de escrita – aqueles de quem espero beijos e abraços e um agradecimento final. Em vez disso, dedico-me a trabalhos de construção arrastados no tempo ou, pura e simplesmente, a nada. Hoje, enquanto pensava na fruta que me apetecia comprar, reparei num pormenor que me lembrou de uma ideia que tive há coisa de dois anos – um pouco mais, talvez – para me relançar na maratona de escrever um romance. E reparei que continuo a considerá-la uma óptima ideia. Então porque não lhe voltei a pegar, porque estanquei o seu desenvolvimento quando tudo apontava para que fluísse com leveza até ao mar final? Preguiça? Receio? Não, não vou usar a costumeira falta de tempo como desculpa. Estou sempre a tempo, é certo, mas também sei que não devia ter parado. E agora, como recomeçar?...

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Damon at 10:06 p.m.