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Um Domingo em Dezembro Não veio o vento. Não veio a voz do tempo Anunciando presenças Nem ausências, Essas notadas há já muitas folhas De calendário. Um bloco de notas. Rasgado em pequenos pedaços De linhas tortas, Como as que o homem impotente Mas importante Mancha nas suas horas tristes. Vieram nuvens, Foi vê-las chegar Nos seus casacos de peles, Acenando notas de vinte Que até pareciam gotas de chuva Aos meus olhos patetas. Nunca me lembro Desta presença vazia Nos outros dias, Entendo tudo Como um bom comerciante. Nunca me sento Nesta cadeira feia e fria Nos outros dias, Caminho na margem E o horizonte é gélido E maravilhosamente parado. Mas o vento não veio Hoje E faz-me falta a sua música, Mesmo quando tosse Para cima de mim E me contagia com o terrível vírus Da melancolia. Etiquetas: poema Damon at 5:14 p.m. Às vezes, Preciso de fechar os olhos Para me entreter Na teia dos sonhos, Perder-me no rumo, Brincar com as cordas De uma guitarra velha, Esquecida no sótão, Ao lado de caixas de cartão Cheias de brinquedos. Há uma magia de nuvens No meu céu. Um momento. Uma memória. Uma selvagem esperança De voltar ao princípio do mundo. Há uma criança que brinca No meu sótão. Há uma criança que brinca No meu jardim. Que colhe flores Sem as matar. Tenho um armazém De esboços Na despensa Da minha sala de estar. Sou uma honestidade De claro-escuro, Sempre que fecho os olhos, Sempre que uso os olhos Para ver. Há uma chávena De chocolate quente E um pratinho de biscoitos Algures à minha espera. Às vezes. Sempre que fecho os olhos. Etiquetas: inglaterra, poema Damon at 2:53 p.m. Foi num Agosto de sombras, De chuva inglesa, miudinha e certeira, Que pus pés ao caminho E por entre a humidade, Fiz o que me era suposto: Caminhei. Pela Alma Road, Andei em linha recta, Sem medo dos bichos da noite, Das lojas de take away Exaustas e assombradas Ou dos condutores de olhar perdido E lágrimas no pára-brisas. Pouco antes de chegar À Silver Lady, reparei Que a Tentação caminhava ao meu lado, Lembrando-me outras noites Feitas de frio mas não de chuva, De uma cidade de anjos E não de uma rua de almas. A Tentação, Leve e sorridente, Riu-se comigo do sinal de “no exit” À porta do cemitério. Convidou-me a tomar um copo Num dos bares de Charminster. Acenei-lhe que não Como quem recusa responder A um inquérito de rua. Mantive os olhos no horizonte E disse-lhe: “Lamento desiludir-te. Eu não bebo; choro.” E continuei, Como quem caminha à beira-Tejo, Ao ritmo dos The Cure, Em passos decididos A seguir o relevo Do passeio. Até que o dia me levasse. É que a outra Alma Road Vai ter a Charminster; Esta apenas vai. Etiquetas: inglaterra, poema Damon at 11:59 p.m. Há uma distância Quase marítima entre nós. Nenhum engenheiro se atreveria A projectar uma ponte que nos unisse. Uma estrada comprida, Larga, veloz e confortável Seria rapidamente engolida Pelo pó e pela sua matéria-prima. Tu és como os Balcãs, Sempre desejosos de explodir, Alastrando os braços teimosos Ao resto do mundo. Eu sou como a Noruega, Rica e descomprometida, Só que a minha riqueza Cabe no bolso das calças De uma criança de seis anos. Partilhamos o tempo, pelo menos, Um tempo, uma só oportunidade Para mexer os lábios roídos E apontar um ao outro As armas que trazemos Nas pontas gastas dos dedos. Bendita ilusão, Este vidro, um poço sem água, Uma janela sem vento. Apesar de todas as léguas, Todos os metros e litros, Posso sempre ver-te Se me puser em frente ao espelho. Etiquetas: poema Damon at 6:00 p.m. Nesta avenida as árvores Filtram-me o sol, Impedem-me as insolações, Dão ritmo ao meu vento Que anda dentro de mim, Revolto como um mar de oxigénio Desejoso de se fazer à estrada Que vai dar à praia. Quero dar-me de beber Ao mar, secar as pétalas Que carrego há anos Numa mala de papel pautado. Quero dar-me. As pétalas secas Nas páginas feias dos meus sonhos São ainda assim mais bonitas Do que os meus olhos quando acordo. Quero dá-las. Esta avenida é longa Como os meus braços estendidos, Ninguém vem à porta Para me receber. Sigo com as árvores. Etiquetas: poema Damon at 9:42 p.m.
Entre os lençóis Entre os lençóis, Temo o nevoeiro, Temo o tempo que leva A que a noite passe E chegue o sol E depois o sol não chega, Apenas a chuva E essa traz na mala As lágrimas de mais alguém. E eu não quero as lágrimas De mais ninguém, Tenho as minhas E as de todas as personagens Que inventei em noites como esta Numa tela que parece branca Mas é uma cova invertida, Mais funda do que o poço da morte, Mais feia do que uma beldade com más intenções. Entre os lençóis, Entre os lenços Que me afagam a testa suada Mas não impedem os pés De tremer ao tocar o ar frio, É assim que me deixo, Desta forma indigna que me abandono Aos cuidados da mãe nocturna. Temo o regresso De uma alma desejada Porque temo que o seu peso Quebre o vaso da minha eloquência (Alguém escreveu “FRÁGIL” na embalagem, Fui eu) E eu não quero juntar pedaços infinitos Às gavetas cheias do pó que, soprado, Me confunde a luz e as horas. Etiquetas: poema Damon at 8:48 p.m.
Corpo Luminoso A luz veio. Da esquerda, liberal e libertina, Rasgou a tela mas não te magoou, A luz reconheceu-te. Bateu-te no rosto. Delicadamente. Deliciadamente. Sobreviveu no teu peito, Onde vive toda a forma, Todo o gesto delicado, Ponto de partida para Todas as viagens impossíveis. Absorveste-a. A luz fundiu-se Na tua pele solar, Ficou por lá, passeando Entre a multidão De sombras. Quando te viraste, Protegendo os olhos do fogo, Sorrias. Etiquetas: poema Damon at 4:07 p.m.
Cá estou eu, Mais uma vez, Frente ao espelho. Fina tela de gozo. Espera por mim todos os dias. É como se do outro lado Eu fosse mais feio, Pior ainda porque o vidro Se foi riscando Com o cair da areia Da erosão dos tectos. Cá estou, no entanto, incapaz De me pôr a andar, Dar de frosques A toque de corrida, Sem nunca voltar o pescoço Para dizer adeus. Limito-me a Contemplar a figura odiada, Desejar outra em lugar dela, Chego a ter pena do que vejo. Fico aqui horas a fio, Cosendo incapacidades, Inércias e indecisões. Etiquetas: poema Damon at 6:09 p.m.
Quero chover, Encharcar de mim os teus cabelos, Dar brilho à tua pele esquecida De amor, de abraços, de apoios. Fazer história, correr rua abaixo, Em direcção ao rio turvo, Onde se misturam as lágrimas E os químicos, lavada a roupa suja, Quero polir as pedras, Esculpi-las das memórias Da minha passagem por ti. Quero riscar as luzes, Criar ilusões nos reflexos, Fazer-te sorrir, acreditando Na inocência das águas, As mesmas que matam em alto mar. Que me bebas, Que me chores, Que laves em mim os dedos cansados, Que te queixes dos meus dias, Usando-me como desculpa Para as horas em que és insuportável. Prefiro chover eu. Não gosto que chovam pedaços de céu. E não quero que sejas tu A desfazer-te em dias cinzentos. Etiquetas: poema Damon at 3:43 p.m.
Isto É uma espécie de SMS. Mas sabes que, para mim, é Sempre Mais Simples Pegar na esferográfica e, Ainda que risque, Adultere e viole o espontâneo, Sou mais capaz de dizer o que sinto. Mal de mim Que digo o que sinto. Londres é cinzento. É o céu da cor dos prédios E os prédios da cor do céu. Aqui e ali, Umas manchas vermelhas Escorregam pelas ruas húmidas. Outras manchas, Pretas, mais pequenas, Apregoam o seu estilo E vendem-se em miniatura Como Galos de Barcelos. Londres é azul, Porque a luz cinzenta Assim se desenha Nos edifícios cinzentos. Londres é dourado, Só para enganar, Pintam-se as pontes E o cume das estátuas, Que se querem altas, Para que se confundam com Aviões que voam baixinho E contrastem com o céu. Londres é amarelo, Porque o dourado Perde inevitavelmente o brilho. Ou seja: Londres é colorido. Mas só com dois pares de olhos Se consegue ver as cores. Londres Não é como Paris. Em Paris, Está escrito Que se anda de mão dada À pessoa oferecida. Em Londres, Passeiam-se os amigos, E o romantismo É o desse abraço quente E permanente. Aqui, Sinto-me mais português Do que na China. O meu sorriso é verde E vermelho, Com um escudo Na ponta do nariz. Sussurro na névoa Da minha respiração Palavras da nossa língua, Cantadas com mais força, Até parece! Mas sou generoso. Dou-lhes o sorriso que não têm. Em troca, Peço apenas que me deixem Viver um bocadinho Deste país que arrepia. Que vicia. Estou triste, Sem o abraço quente, Sem distinguir as cores submersas No reflexo do rio. Mas sei Que vou cá voltar. Again and again. Mesmo que sozinho E a preto-e-branco. Londres, 29 de Novembro de 2008. Damon at 3:54 p.m.
Dançam paus e pedras À minha volta, querem Que eu seja o Sol, Que eu esteja só Como o Sol. Por vezes, sinto O toque do quartzo Nas manhãs, no meu quarto, Se me intrometo na rota, Se me desvio do trajecto. Por vezes, sinto As farpas do carvalho, Ardem como o Capitólio Nos sonhos de um revolucionário, Espetam-me a pele Como se me fossem devorar Com batatas e salada e arroz, ao jantar. Dançam paus e pedras À minha volta, querem Enganar-me com as suas danças, Esperam a voz de comando, Entretanto, de mãos dadas, Dançam à minha volta, Querem é manter-me debaixo de olho, Para certeiras, me partirem Em pedaços iguais a eles. Etiquetas: paus, pedras, poema Damon at 6:11 p.m. canção do momento: reni laine, «swim» O sonho americano
Etiquetas: poema Damon at 9:17 p.m.
canção do momento: the good the bad and the queen, «80's life» Sentimento imperfeito
Etiquetas: poema Damon at 5:02 p.m. Televida
Etiquetas: poema Damon at 7:10 p.m.
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outras praias
where words come together as waves, blue and beautiful, dying in the whiteness, but repeating themselves like music notes, from sunrise to sunset to sunrise again. um livro: «Saudades de Nova Iorque», de Pedro Paixão. um filme: «Memento». um disco: «King of limbs», Radiohead. |