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domingo, dezembro 12, 2010
Um Domingo em Dezembro

Não veio o vento.
Não veio a voz do tempo
Anunciando presenças
Nem ausências,
Essas notadas há já muitas folhas
De calendário.

Um bloco de notas.
Rasgado em pequenos pedaços
De linhas tortas,
Como as que o homem impotente
Mas importante
Mancha nas suas horas tristes.

Vieram nuvens,
Foi vê-las chegar
Nos seus casacos de peles,
Acenando notas de vinte
Que até pareciam gotas de chuva
Aos meus olhos patetas.

Nunca me lembro
Desta presença vazia
Nos outros dias,
Entendo tudo
Como um bom comerciante.

Nunca me sento
Nesta cadeira feia e fria
Nos outros dias,
Caminho na margem
E o horizonte é gélido
E maravilhosamente parado.

Mas o vento não veio
Hoje
E faz-me falta a sua música,
Mesmo quando tosse
Para cima de mim
E me contagia com o terrível vírus
Da melancolia.

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Damon at 5:14 p.m.

sábado, agosto 28, 2010

Sempre que fecho os olhos

Às vezes,
Preciso de fechar os olhos
Para me entreter
Na teia dos sonhos,

Perder-me no rumo,
Brincar com as cordas
De uma guitarra velha,
Esquecida no sótão,
Ao lado de caixas de cartão
Cheias de brinquedos.

Há uma magia de nuvens
No meu céu.
Um momento.
Uma memória.
Uma selvagem esperança
De voltar ao princípio do mundo.

Há uma criança que brinca
No meu sótão.

Há uma criança que brinca
No meu jardim.
Que colhe flores
Sem as matar.

Tenho um armazém
De esboços
Na despensa
Da minha sala de estar.

Sou uma honestidade
De claro-escuro,
Sempre que fecho os olhos,
Sempre que uso os olhos
Para ver.

Há uma chávena
De chocolate quente
E um pratinho de biscoitos
Algures à minha espera.

Às vezes.
Sempre que fecho os olhos.

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Damon at 2:53 p.m.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Alma Road

Foi num Agosto de sombras,
De chuva inglesa, miudinha e certeira,
Que pus pés ao caminho
E por entre a humidade,
Fiz o que me era suposto:
Caminhei.

Pela Alma Road,
Andei em linha recta,
Sem medo dos bichos da noite,
Das lojas de take away
Exaustas e assombradas
Ou dos condutores de olhar perdido
E lágrimas no pára-brisas.

Pouco antes de chegar
À Silver Lady, reparei
Que a Tentação caminhava ao meu lado,
Lembrando-me outras noites
Feitas de frio mas não de chuva,
De uma cidade de anjos
E não de uma rua de almas.

A Tentação,
Leve e sorridente,
Riu-se comigo do sinal de “no exit”
À porta do cemitério.
Convidou-me a tomar um copo
Num dos bares de Charminster.

Acenei-lhe que não
Como quem recusa responder
A um inquérito de rua.
Mantive os olhos no horizonte
E disse-lhe:
“Lamento desiludir-te.
Eu não bebo; choro.”

E continuei,
Como quem caminha à beira-Tejo,
Ao ritmo dos The Cure,
Em passos decididos
A seguir o relevo
Do passeio.
Até que o dia me levasse.

É que a outra Alma Road
Vai ter a Charminster;
Esta apenas vai.

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Damon at 11:59 p.m.

quarta-feira, agosto 18, 2010

A distância entre nós

Há uma distância
Quase marítima entre nós.
Nenhum engenheiro se atreveria
A projectar uma ponte que nos unisse.

Uma estrada comprida,
Larga, veloz e confortável
Seria rapidamente engolida
Pelo pó e pela sua matéria-prima.

Tu és como os Balcãs,
Sempre desejosos de explodir,
Alastrando os braços teimosos
Ao resto do mundo.

Eu sou como a Noruega,
Rica e descomprometida,
Só que a minha riqueza
Cabe no bolso das calças
De uma criança de seis anos.

Partilhamos o tempo, pelo menos,
Um tempo, uma só oportunidade
Para mexer os lábios roídos
E apontar um ao outro
As armas que trazemos
Nas pontas gastas dos dedos.

Bendita ilusão,
Este vidro, um poço sem água,
Uma janela sem vento.

Apesar de todas as léguas,
Todos os metros e litros,
Posso sempre ver-te
Se me puser em frente ao espelho.

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Damon at 6:00 p.m.

quinta-feira, maio 13, 2010

East Avenue

Nesta avenida as árvores
Filtram-me o sol,
Impedem-me as insolações,
Dão ritmo ao meu vento

Que anda dentro de mim,
Revolto como um mar de oxigénio
Desejoso de se fazer à estrada
Que vai dar à praia.

Quero dar-me de beber
Ao mar, secar as pétalas
Que carrego há anos
Numa mala de papel pautado.

Quero dar-me.

As pétalas secas
Nas páginas feias dos meus sonhos
São ainda assim mais bonitas
Do que os meus olhos quando acordo.

Quero dá-las.

Esta avenida é longa
Como os meus braços estendidos,
Ninguém vem à porta
Para me receber.

Sigo com as árvores.

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Damon at 9:42 p.m.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

canção do momento: madredeus, "vaca de fogo"

Entre os lençóis

Entre os lençóis,
Temo o nevoeiro,
Temo o tempo que leva
A que a noite passe
E chegue o sol
E depois o sol não chega,
Apenas a chuva
E essa traz na mala
As lágrimas de mais alguém.

E eu não quero as lágrimas
De mais ninguém,
Tenho as minhas
E as de todas as personagens
Que inventei em noites como esta
Numa tela que parece branca
Mas é uma cova invertida,
Mais funda do que o poço da morte,
Mais feia do que uma beldade com más intenções.

Entre os lençóis,
Entre os lenços
Que me afagam a testa suada
Mas não impedem os pés
De tremer ao tocar o ar frio,
É assim que me deixo,
Desta forma indigna que me abandono
Aos cuidados da mãe nocturna.

Temo o regresso
De uma alma desejada
Porque temo que o seu peso
Quebre o vaso da minha eloquência
(Alguém escreveu “FRÁGIL” na embalagem,
Fui eu)
E eu não quero juntar pedaços infinitos
Às gavetas cheias do pó que, soprado,
Me confunde a luz e as horas.

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Damon at 8:48 p.m.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

canção do momento: arcade fire, "i'm sleeping in a submarine"

Corpo Luminoso

A luz veio.
Da esquerda, liberal e libertina,
Rasgou a tela mas não te magoou,
A luz reconheceu-te.

Bateu-te no rosto.
Delicadamente.
Deliciadamente.

Sobreviveu no teu peito,
Onde vive toda a forma,
Todo o gesto delicado,
Ponto de partida para
Todas as viagens impossíveis.

Absorveste-a.
A luz fundiu-se
Na tua pele solar,
Ficou por lá, passeando
Entre a multidão
De sombras.

Quando te viraste,
Protegendo os olhos do fogo,
Sorrias.

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Damon at 4:07 p.m.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Frente ao espelho I

Cá estou eu,
Mais uma vez,
Frente ao espelho.
Fina tela de gozo.
Espera por mim todos os dias.

É como se do outro lado
Eu fosse mais feio,
Pior ainda porque o vidro
Se foi riscando
Com o cair da areia
Da erosão dos tectos.

Cá estou, no entanto, incapaz
De me pôr a andar,
Dar de frosques
A toque de corrida,
Sem nunca voltar o pescoço
Para dizer adeus.

Limito-me a
Contemplar a figura odiada,
Desejar outra em lugar dela,
Chego a ter pena do que vejo.

Fico aqui horas a fio,
Cosendo incapacidades,
Inércias e indecisões.

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Damon at 6:09 p.m.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

História da chuva

Quero chover,
Encharcar de mim os teus cabelos,
Dar brilho à tua pele esquecida
De amor, de abraços, de apoios.

Fazer história, correr rua abaixo,
Em direcção ao rio turvo,
Onde se misturam as lágrimas
E os químicos, lavada a roupa suja,
Quero polir as pedras,
Esculpi-las das memórias
Da minha passagem por ti.

Quero riscar as luzes,
Criar ilusões nos reflexos,
Fazer-te sorrir, acreditando
Na inocência das águas,
As mesmas que matam em alto mar.

Que me bebas,
Que me chores,
Que laves em mim os dedos cansados,
Que te queixes dos meus dias,
Usando-me como desculpa
Para as horas em que és insuportável.

Prefiro chover eu.
Não gosto que chovam pedaços de céu.
E não quero que sejas tu
A desfazer-te em dias cinzentos.

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Damon at 3:43 p.m.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Poema-mensagem sobre Londres naquele dia

Isto
É uma espécie de SMS.
Mas sabes que, para mim, é
Sempre Mais Simples
Pegar na esferográfica e,
Ainda que risque,
Adultere e viole o espontâneo,
Sou mais capaz de dizer o que sinto.

Mal de mim
Que digo o que sinto.

Londres é cinzento.
É o céu da cor dos prédios
E os prédios da cor do céu.
Aqui e ali,
Umas manchas vermelhas
Escorregam pelas ruas húmidas.

Outras manchas,
Pretas, mais pequenas,
Apregoam o seu estilo
E vendem-se em miniatura
Como Galos de Barcelos.

Londres é azul,
Porque a luz cinzenta
Assim se desenha
Nos edifícios cinzentos.

Londres é dourado,
Só para enganar,
Pintam-se as pontes
E o cume das estátuas,
Que se querem altas,
Para que se confundam com
Aviões que voam baixinho
E contrastem com o céu.

Londres é amarelo,
Porque o dourado
Perde inevitavelmente o brilho.

Ou seja:
Londres é colorido.
Mas só com dois pares de olhos
Se consegue ver as cores.

Londres
Não é como Paris.

Em Paris,
Está escrito
Que se anda de mão dada
À pessoa oferecida.

Em Londres,
Passeiam-se os amigos,
E o romantismo
É o desse abraço quente
E permanente.

Aqui,
Sinto-me mais português
Do que na China.
O meu sorriso é verde
E vermelho,
Com um escudo
Na ponta do nariz.

Sussurro na névoa
Da minha respiração
Palavras da nossa língua,
Cantadas com mais força,
Até parece!

Mas sou generoso.
Dou-lhes o sorriso que não têm.

Em troca,
Peço apenas que me deixem
Viver um bocadinho
Deste país que arrepia.
Que vicia.

Estou triste,
Sem o abraço quente,
Sem distinguir as cores submersas
No reflexo do rio.

Mas sei
Que vou cá voltar.

Again and again.

Mesmo que sozinho
E a preto-e-branco.

Londres, 29 de Novembro de 2008.

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Damon at 3:54 p.m.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Paus e pedras

Dançam paus e pedras
À minha volta, querem
Que eu seja o Sol,
Que eu esteja só
Como o Sol.

Por vezes, sinto
O toque do quartzo
Nas manhãs, no meu quarto,
Se me intrometo na rota,
Se me desvio do trajecto.

Por vezes, sinto
As farpas do carvalho,
Ardem como o Capitólio
Nos sonhos de um revolucionário,
Espetam-me a pele
Como se me fossem devorar
Com batatas e salada e arroz, ao jantar.

Dançam paus e pedras
À minha volta, querem
Enganar-me com as suas danças,
Esperam a voz de comando,
Entretanto, de mãos dadas,
Dançam à minha volta,
Querem é manter-me debaixo de olho,
Para certeiras, me partirem
Em pedaços iguais a eles.

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Damon at 6:11 p.m.

sexta-feira, maio 11, 2007

canção do momento: reni laine, «swim»

O sonho americano

Não vejo razões para ficar.
Contaram-me a história de um sonho
E esqueceram-se de que os sonhos
Só se concretizam de noite.
E se a noite nunca acaba,
De que vale ter sonhado?

Ao jantar,
Barra-se pão com manteiga
E ouve-se o tilintar das vozes.
Os dentes dão à luz no escuro,
Comidos por dentro, reluzem,
Insaciáveis, maxilares exaustos
E ainda assim insaciáveis.

Não vejo razões para não voltar.
Pintaram-me a tela de ouro
E eu sempre achei piroso
O tom dourado das jóias
E dos discursos sobre prosperidade.

Nas ruas,
Faz-se poesia de algarismos
E dos tais sonhos, meus caros,
Tão caras miragens são bugigangas.
Da gasolina, não farás luz,
Mesmo que te queimes.

Carrego uns tesouros baratos,
Uma vida que ninguém leva nos saldos,
Insuficiente para comprar estadias
Em sítios assim.


10 de Maio de 2007,
Linden, New Jersey.

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Damon at 9:17 p.m.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

canção do momento: the good the bad and the queen, «80's life»

Sentimento imperfeito

Sinto
Um sentimento imperfeito,
Uma folha rasgada
Num dos cantos
Mais insignificantes.

Talvez sofra a erosão
Dos verbos velhos, mal-amados
Do Imperfeito.

Quem sabe,
A jarra pousada
Em cima da mesa
(em cima de mim)
Padeça das flores
Que são, elas mesmas,
Mais imperfeitas
Do que as linhas do meu corpo.
E por isso, mentem
E mantêm a sua versão
Dos factos.

Sinto esta coisa
Que nem objecto nem doença
Nem carne nem sangue
Nem osso nem músculo,
Talvez a guelra que não me pertence,
O meu pulmão de Aquiles.

Barata-tonta,
Bebo a água da jarra
Como se regasse uma planta,
Completasse um padrão,
Tricotasse sapatinhos de lã,
Conhecesse o frio que vem aí.
Ou o calor ou a chuva não sei.

Sinto
Este sentimento imperfeito,
Sinto-me incompleto
E, pelos solavancos da carruagem,
Não tarda nada,
Vou achar de mim
Um perfeito disparate.

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Damon at 5:02 p.m.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Televida

Senta-te no sofá,
Espera que a tv adormeça,
Depois reza a oração do dia
E pressiona o botão vermelho.
Tudo será verdade.

Os teus olhos
Serão cogumelos anónimos,
Borboletas-traças devoradoras
De todas as cores
De todos os dias
Perdidos no mar,
À pesca de um espelho.

Pobre alma daltónica,
O espelho tem estado sempre
Em cima do napron cor-de-rosa
Com bordados em forma de andorinhas,
Por cima do móvel carunchoso,
Onde guardas as pratas,
Onde guardas as fotos,
Onde guardas os bichos
Para que não te comam,
Por enquanto.

Senta-te no sofá,
Espera que a tv adormeça,
Fecha os olhos que tiveres
E espera o nascer do sol.
Ele há-de vir, a cores
E com vontade de te ensinar.

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Damon at 7:10 p.m.